segunda-feira, 26 de julho de 2010

Amor fati ou um jogo de você



Em algum lugar das terras brandas, ou no país da delicadeza reencontrada]
Onde os nossos sonhos se encontram e o tempo não existe,
A vinha efêmera já começa a apodrecer nas memórias da janela
Do quarto de livros que chora sua ausência.

Você vem dançando pelo aquário, roubando almas
Com suas lentes.
Você vem com sede nos lábios, radiantemente refletida
Em meus olhos fulvos.
Você devora morangos mofados, ao lado do ipê amarelo,
Ancorada em minhas pernas.
Você vem e me faz teu escravo, eterno cativo da libido
E da neve de seus seios.

Sou um marujo, de corpo esquálido;
Navegante de fontes sujas e copos descartáveis.
Sou um farsante, te peço um cigarro
Para deixar claro que o meu desejo é fogo.
Sou um passageiro, viajante sem passado,
Caronista parasita de memórias
Sou um garoto que dorme em seus braços
Para não mais acordar perdido.

Você ri, você mente também
Eu te conto os meus segredos de polichinelo
Você chora, você morre também
Eu salto da janela na esperança de seguir sua estrela.

terça-feira, 20 de julho de 2010

A metamorfose



Um certo dia, nosso protagonista, depois de um sono agitado, acorda transformado em um desprezível homem. E agora? Como se levantar para retomar seu posto como inseto? Não que continuar dormindo não fosse agradável, ao contrário! Não precisaria mais ver sua vida ignorada pelos outros, poderia apreciar melhor sua vida, em geral tão tacanha e mesquinha.

Poderia mesmo?

Ao se lembrar de sua família, que a esta hora repousava tranquilamente nos quartos ao lado, sentiu, pela primeira vez, seu coração de dois átrios e dois ventrículos; e ele começava a arder. Após tantos anos sendo apenas um invisível inseto, eternamente esquecido na grandiosidade da vida no império partriarcal de sua casa, que reação teria seu pai ao vê-lo como um homem feito? que reação ele próprio teria ao se ver ineditamente como centro das atenções onde outrora era apenas um incômodo a ser esmagado? O suor frio inundava a cama nunca antes tão pequena, ao passo que cada segundo gotejante era torturante na medida em que se preparava para responder a tal silêncio.

Desejou que tudo isso fosse sonho, como sempre foi. Nunca imaginara o quão perturbador suas preces poderiam se mostrar.

E logo percebeu que como homem, teria de encarar tudo com sua nova perspectiva de 180 centímetros, começando por crescer jogando para fora todos seus antigos sonhos como figurinhas de futebol pela privada. Crescer…nosso protagonista começa a perceber o novo significado desta palavra. Crescer para os homens como ele e seu pai se resumia em escolher uma ou duas marcas preferidas, decidir passar mais tempo no trânsito que com a família e assinar uma revista. Tarefa nada fácil, sobretudo para um inseto.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

O eterno intervalo de Odisseu (para uma letrista bem sucedida em clássicos)




Longe...
Eu de mim mesmo.
"Porque eu sonho, eu não sou" , diz ele, que está
Longe também, como Itália
E a nossa fuga para o nada
Ao som de teu sorriso piano

Longe, muito
Como o infinito frio
Do universo que não compreende,
Do mundo surdo que não se estende
E da podridão aflita de meu desânimo
Desesperado e cansado de estar sempre

Longe...circunavegando
Pelos distantes mares
Destes mesmos erros

"Eu já viajei tanto, meu bem"
Eu não. E se você soubesse?
Para mim o planalto não é tão remoto
Que minhas esperanças longínquas perdidas
De tentar fugir de meu quarto sem janelas expressivas
Como a dos olhos do teu apartamento...tão longe

Que nem mesmo sei o tamanho do seu mundo
Mas sei o da ausência. Sei também a longitude
Dos burros oceanos que singro para reduntantemente
Soçobrar nas mesmas dunas de areia branca ao anoitecer.
Tanto esforço para nada...minha nau de velas rasgadas naufraga
E meu diário de bordo já somam tantas frustrações que mesmo longe

De lugar nenhum
Já cansei de cravar no peito
As letras destes mesmos erros

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Esboço de mais uma derrota



o meu coração vai explodir

tumtátumtátumtátumtá

levanto meu vôo; sou o rei dos céus
e todos vocês parecem formigas
pois eu sou Deus
eu não quero saber de ninguém
eu esmago as formigas
te jogo na cama
e te faço minha rainha
enquanto o sangue jorra em minha cabeça
como heroin de Lou Reed [and I guess I just don't know]

tum tá tum tá tum tá
essa porra toda vai explodir

tum tá...tum

merda.


você está indo embora [não não não não]
deixa meu corpo murchar
"tem mais um raio" diz a rainha
enquanto nosso reino de amores falsos
é erguido junto ao castelo branco
que mandamos pra dentro das narinas
e o escarro queima

meu coração...

tumtátumtátumtátumtátumtá


meus braços tremem
meu corpo treme
minha mente...minha mente mente
tum tá tum tá
e os corpos presentes não me deixam esquecer que estou sozinho
sozinho...onde está você?
meu coração está parando...e eu tenho vontade de gritar
mas não posso, não agora...senão ele pode acabar acordando

"como você pode seguir feliz cometendo os mesmos erros?" ela diz
eu digo sempre que sinceramente não sei, não sei se sou nem se quero...
só sei que a história não tem fim

porra, o que é que foi acontecer comigo?
onde é que estavam vocês quando olhei para trás?
longe demais para notar que o sangue pulsa e jorra
mas também escorre

tum...

D I S F O R I A

merda merda merda merda
eu tentei sussurrar seu nome
eu tentei eu tentei eu tentei mas não adiantou
agora é a hora do dragão acordar
surge do meu peito e me devora por dentro
saindo nos meus gemidos enquanto arranha minha garganta
onde está você, caralho?

não, eu não sou um marinheiro de primeira viajem
tampouco guerreiro despreparado:
encharco o [filha da puta do] dragão de vodka
e assisto ele queimar [como minhas narinas e garganta]
ao som dos violinos que tocaram no funedal do anjo negro

tum...tum...

mas não adianta
não tenho sua mão em meu peito
e sua voz dizendo que está tudo bem
então eu quero mais é que se foda porque tenho uma nota de dez na carteira

t u m...t u m...tá
meu coração desiste

terça-feira, 6 de julho de 2010

Essa é a minha ruína, esse é o nosso fim.



esta é a minha ruína: Eu, o inimigo
devorador de pecados e de espírito
um tanto negro e neurótico,
eternamente sedento e faminto
por carne para cravar novas feridas

e como diz aquele outro, que
enquanto olha atentamente nos meus olhos
através do espelho
e sorri e sussurra
em desespero: O inferno sou eu