quarta-feira, 30 de julho de 2008

"Já estive em todos esses corações pulsantes, principescos, purulentos"
Afirmou, sentado em uma das cadeiras sofridas do café na avenida.

Beijou um cigarro torto, olhou para baixo e afogou-se em sua xícara. "café e cigarros,entende? como café e cigarros...uma vez nascido você é um adicto, sedento e miserável, perseguindo desejos encardidos na carne" Olhou para os lados com os olhos inquietos; Tremendo o lábio e os braços, parecia desconfortável com a idéia apresentada.

"Você sabe...eu fiz de tudo, eu a amava, como amo o gosto do café" Bebeu o resto do café preto com vontade, na tentativa de representar a frase recém falada.
Suspirou e debruçou-se sobre a mesa, como que bêbado, deixando o cigarro queimando no cinzeiro de vidro vermelho "A paixão, o toque...veja bem, é preciso simplesmente desistir, desistir e se conformar"
Fez sinal ao garçom.

"É realmente terrível, mas mesmo com a garganta seca, ainda me resta nossas memórias...que agora, são apenas minhas. Mal vivo, pois, como velho, me agarrando a velhos dias. Ouça bem, amigo, ainda há tempo para ti...lembre-se de que quem pede um beijo sempre pede mais que um beijo, e quem ganha um beijo, sempre ganha mais que um beijo...não cometa os mesmos erros que eu"

A noite já estava sendo anunciada no céu, roubando um por um os raios de sol, invadindo a mesa do café na forma de um longo e triste silêncio, que apenas o por do sol consegue causar aos que tem pouco, ou nenhum tempo.

"Eu tive de desistir do meu pecado mais doce, fui obrigado a vê-lo morrer na minha frente, fui obrigado a matá-lo. Só me resta este gosto amargo, que venho tentando tirar desesperadamente em sessões de cigarro e café..." Tentou beber algo da xícara já vazia, e percebeu que o café pedido ao garçom não chegara. Parecia estar irritado com a demora e com o frio causado pelo anoitecer. O cigarro ainda queimava no cinzeiro. "Por isso dizia, este tipo de amor é como café e cigarros, algo tão sensacionalmente casual, equilibrado e de fino sabor, mas nada saudável...alguns dizem ser idiotice, outros poucos auto-destruição, mas o fato é que manter os dois juntos é simplesmente burrice, mas bem, nenhum de nós é tão esperto, certo?”

“Portanto, minha vida anda assim, correndo entre os espíritos mais sujos e tristonhos, sem certeza nenhuma, apenas a do gosto do café...” O homem começara a ficar impaciente, ameaçou-se levantar, mas continuou, por um tempo : “Quando se perde a alegria de viver, filho, você lentamente vai abrindo mão de tudo, e o pouco que me resta é este café vagabundo, e um punhado de cigarros baratos” Levantou-se finalmente, e saiu, sem pagar a conta. O cigarro queimara até o filtro, mergulhado no cinzeiro de vidro, e o café que ordenara, chegou meia hora depois.